Objets Propagés
Considerações sobre o vídeo de Internet como formato audiovisual, a partir da experiência do Festival de Baixa Resolução 2005.
Não é à toa que a definição de
uma linguagem audiovisual proceda de seu formato: o filme, o vídeo. O suporte
prescreve certos expedientes de produção que vão determinar características elementares,
comuns a qualquer obra realizada em suas condições.
Entretanto, na medida em que
esses expedientes convergem e se confundem, o suporte perde a primazia para o
meio, interface de distribuição e consumo. Embora ainda existam vícios de
produção, obras para o cinema, para a televisão e para telefones celulares já podem
ser todas realizadas do mesmo jeito, utilizando tecnologias muito semelhantes. O
que por fim demarcará seu formato é a dinâmica de fruição pretendida, e é bom
que assim seja: parâmetros definidos pelo suporte acabarão de qualquer forma recondicionados
pela interface.
O meio onde melhor percebermos esse recondicionamento é a World Wide Web, que transforma obras dos mais variados formatos em “vídeo de Internet”, conforme elas se sujeitem às dinâmicas de propagação característica da rede – dinâmicas cuja norma desviante é o internet phenomenon, “something relatively unknown [that] becomes increasingly popular, often quite suddenly, through the mass propagation of media content made feasible by the Internet”.[1]
Posto que nem todo audiovisual
que está na Web obedece ao mesmo paradigma, cumpre identificar em que medida é
possível definir um formato específico a partir das características do meio. Este
foi o primeiro desafio colocado na concepção do Festival de Baixa Resolução,
mostra competitiva para vídeos de Internet realizada pelo Cine Falcatrua no
final de 2005, em Vitória/ES.
Festejando o “quase-anonimato” da
rede e se propondo a “mapear todo seu conteúdo original e culpar os
responsáveis”, o Festival de Baixa Resolução se colocava como uma ferramenta inusitada
para a investigação e legitimação deste formato audiovisual.
Ao contrário de outros festivais
que lidam com conteúdo on-line, como o Fluxus[2] e
o Animamundi Web,[3] as
exibições do Baixa Resolução aconteceram fora da rede, em uma estrutura
convencional de disputa cinematográfica: telão, platéia, sound surround. Dessa forma, o vídeo de Internet era colocado no
mesmo patamar do filme de curta-metragem, da videoarte e de outros formatos
estabelecidos, justamente para que pudesse ser definido em relação a eles.
Através do choque entre o conteúdo
desautorizado da rede e a atmosfera hiper-regulamentada da Instituição Cinematográfica,
pretendia-se fazer saltar características inerentes ao formato. Os poucos
parâmetros definidos pelo regulamento diziam respeito somente às condições de
autoria e premiação. A única restrição explícita era para “screeners ou
telecinagens do último sucesso de Hollywood”. De resto, valia tudo, dentro das
limitações do meio: o material deveria ser forçosamente encontrado na Web, e
enviado para pré-seleção por e-mail.
Entre os vídeos inscritos,
notou-se a predominância de remixes, performances
escatológicas e trechos de programas de TV ou filmes – “gêneros” eminentemente
digitais, cuja produção é favorecida pela ampla disponibilidade de equipamentos
de captura e edição. São obras que de repente existem, e se encaminham para a
rede por não encontrarem ali a mesma resistência formal, jurídica e econômica dos
meios estabelecidos.
Isso não chega a caracterizar a
Internet como refugo para trabalhos amadores e despretensiosos, embora essas
duas características realmente prevaleçam no meio. Certas obras preparadas com todo
apuro técnico, por profissionais de carreira reconhecida, não poderiam ser
encontradas em outro lugar.
Bons exemplos são “The Mashin’ of
The Christ”, do grupo Negativland, e “O Destino de Miguel”, supostamente realizado
por jovens funcionários da Rede Globo. O primeiro agrega takes de épicos famosos para recriar a Paixão de Cristo, enquanto o
segundo foi montado a partir de cenas do filme “Shakespeare Apaixonado”,
redubladas por atores famosos.
O custo para distribuir tais
obras em um meio tradicional, regulado, as tornaria impraticáveis. Haveria um desnível
gritante entre o volume de trabalho efetivamente criativo e a maratona jurídica
para negociar licenciamentos de imagem. Com o dinheiro usado para comprar os
direitos de Shakespeare Apaixonado, com certeza seria possível fazer um
curta-metragem novinho em folha, com folga de orçamento.
Essas obras, a partir do momento
em que utilizam a Internet como meio de distribuição, passam a ter que se
adequar aos constrangimentos do meio, mesmo que por efeito colateral. O caso de
“O Destino de Miguel” ainda serve de exemplo. A versão do filme encontrada na
rede é compactada para que sua disseminação on-line
seja viável: possui a baixíssima resolução de 160x120 pixels. É uma obra
completamente diferente de sua suposta variante em DVD, de circulação restrita,
que possui resolução normal para TV (720x480).
Em uma sala de cinema, os desvios
estéticos entre ambas são acentuados. As duas versões do filme, que são praticamente
a mesma no visor de um iPod, se mostram completamente diferentes em um telão. Cada
uma causa um efeito particular na platéia, e não há como negar que esses
efeitos são em grande parte determinados pelas características de seus meios de
distribuição.
Claro que, em um telão de cinema,
o vídeo de Internet está fora de sua condição de consumo particular, condição
esta que também define uma porção do significado da obra. Vídeos de Internet
são objets trouvés no oceano
midiático, re-encontrados cada vez que são vistos. Mas o que os destaca da paisagem
informacional não é um olhar de artista, combinado ao poder legitimador da
galeria, e sim o maravilhamento fortuito que se repete em cada espectador, que
os transmite a outros, até que se tornem substância de um fluxo constante – assim
como o curso de um rio submarino ignora o movimento das marés.
No geral, eles compartilham de
certa condição ready made. O que os
define como obra é, em primeiro lugar, um procedimento de recorte e remediação,
que muito tem a ver com o potencial convergente da rede. Eles não são nada além
de fragmentos de audiovisual arrancados de outras mídias e jogados na Web. Dentro
de seu ambiente natural, passam despercebidos: “Maldita Cachaça” é só mais uma
reportagem mundo-cão; “Vaca Matrix”, uma cena do longa-metragem Kung Pow; “Nintendo 64 Kid”, o registro caseiro
de um dia de Natal.
Quando, entretanto, são extraídos
do meio a que pertencem e propagados pelas vias desautorizadas da rede, esses
fragmentos adquirem outra natureza. Tanto seu significado é alterado pelo novo
enquadramento, como a própria disposição do espectador para com eles se
transforma radicalmente. O público não apenas passa a vê-los como coisa em si,
plena, diferente do que é quando imersa em seu contexto original. Seu papel
perante a obra também muda, já que ele se torna, ainda que involuntariamente,
responsável por sua disseminação.
Ao topar com um vídeo na Internet,
automaticamente se coloca para o espectador a possibilidade de passá-lo adiante
– seja anexando o arquivo em um e-mail, seja postando o link em seu blog. Em um
meio onde não há canais sancionados, e a cada espectador cumpre a função potencial
de editor, essa não é uma decisão leviana.
Repassar um vídeo é substancialmente
diferente de sugerir aos amigos ver (ou não ver) tal blockbuster. Pouco importa para o circuito cinematográfico a
opinião de um único espectador, por mais influente que seja. Se odeio um filme,
posso fazer campanha contra ele – não obstante, haverá publicidade favorável,
muito mais poderosa, nos jornais e na TV. Posso me recusar a citá-lo, fingir
que não existe – mesmo assim, ele estará à disposição das massas na sala de
cinema de qualquer Shopping Center.
No caso da Internet, ao passar a
obra adiante, um espectador está efetivamente completando o circuito que a
levará a outro espectador. O público deixa de ser apenas um extremo, para ser também
intermediário na difusão da mensagem. Mais que isso, ele exerce uma função
ativa nessa estrutura, como em uma brincadeira de telefone-sem-fio. E, mesmo
que não odeie um filme, pode neutralizar parte de sua existência, ao não encaminhá-lo
para ninguém, bloqueando a via de propagação da qual participa.
Em geral, é exatamente isso que
acontece. Não que o público se oponha ao broadcasting;
ele simplesmente não se importa. O agenciamento que as obras atravessam cada
vez que são retransmitidas é positivo – uma filtragem cujo desvio não é reter, mas deixar passar.
Nesse sentido, é misterioso que
certas obras, de maneira quase fortuita, consigam vencer sucessivas camadas de
inércia espectatorial, penetrando em diversas microrredes privadas e fundindo-as
em um meio contínuo de difusão, criando nessa operação o próprio ambiente que
as possibilita se tornarem fenômenos massivos.
Mesmo que se sirva das estratégias
de redundância próprias da rede, essa dinâmica não parece combinar com a topografia
dispersa da Web. Muito pelo contrário, ela a contesta: cria uma norma espacial,
ainda que temporária, onde originalmente só há plateaus, ilhas na bruma, terrenos deteriorados.
Essa planificação do meio é característica
de certos tipos de vírus, que se espalham de uma rede para outra
descontroladamente, ocupando terminal após terminal. Há, no entanto, uma
diferença importante: o mecanismo de propagação do vírus está embutido no código,
faz parte de sua natureza. Recebido por e-mail, um worm se encaminha automaticamente para os contatos do indivíduo
contaminado, à revelia deste. Um vídeo, não. Recebido por e-mail, sua
propagação depende da ação consciente (ainda que irresponsável) do receptor original.
Depende do interesse deste receptor em se tornar, ele próprio, um
retransmissor.
Não cabe aqui esmiuçar as razões
por trás desse interesse, uma vez que são por demais voláteis para serem
sistematizadas. Entretanto, cumpre ressaltar que são tão inerentes à obra e ao
meio quanto ao próprio espectador-retransmissor. Não basta soltar determinado vídeo
em ambiente propício para que ele se espalhe por osmose. Essa dinâmica depende
da atuação conjunta (ainda que desarticulada) de uma série de agentes.
Na verdade, é aí que opera um
segundo procedimento, mais generalizado, que pode servir para caracterizar o
vídeo de Internet como formato. Não se trata de um procedimento discursivo, mas
assertivo, digno de um curador, que endossa e revalida a obra.
Ainda assim, é um procedimento não
menos autoral do que o primeiro, de
recorte, que ele imita a cada estágio. Ao propagar determinado vídeo, o espectador
o reenquadra, acentuando sua importância. São esses sucessivos reenquadramentos
que terminarão por criar a gestalt processual
do meio.
Dessa forma, a autoria do vídeo
de Internet se dilui durante todo o seu processo de difusão, abrindo precedente
para os remixes, mash-ups e versões alternativas. Quanto mais se espalha, mais se
torna obra coletiva, manifestação quase folclórica. Alguém pode fazer uma
animação em flash, enviar para seus amigos pessoais, e recebê-la dois dias
depois, através de listas de discussão públicas. Nessa operação, a autoria foi tão descaracterizada que o
criador (original) da obra (original) se vê colocado no lugar de espectador.
O papel do retransmissor é tão
importante dentro dessa estrutura que é ele que vai assumir a vaga posição de autoridade
sobre as obras. “Realizador” de vídeos de Internet é uma atividade tão desregulada que sou obrigado a colocá-la entre aspas.
Quem cria tal e qual vídeo quase nunca chega a ser reconhecido pelo grande público.
Dessa forma, a única referência que se impõe à obra é o canal pelo qual ela
ganha o mundo – normalmente, blogs de indexação (e criação) de hype, como BoingBoing,[4] Fark,[5] ou
mesmo o brasileiro Kibeloco,[6]
constantemente criticado por aplicar sua logomarca em tudo que reproduz.
Nesse contexto, a legitimidade
midiática (se não artística) de uma obra depende da densidade do seu casting, que não é mais broad, mas peered. Essa espécie de popularidade é uma forma de autenticação
muito particular da rede. Até os programas de busca, o que mais próximo temos
de norteadores do território on-line, se pautam por esse critério: uma página
ganha relevância quanto mais links
apontem para ela.
É curioso notar como essa
estrutura se choca com a dos canais instituídos, e termina por levar “celebridades
de internet” para as páginas de grandes diários novaiorquinos. O caso mais interessante
talvez seja o de Willian Hung, candidato de American
Idol que havia sido terminantemente rejeitado pelo júri do programa. Em
2004, o vídeo de sua apresentação musical disseminou-se pela rede, rendendo-lhe
uma fama maior do que jamais poderia ter tido mesmo que vencesse a competição.
Hung acabou por retornar
triunfante aos meios tradicionais, fechou contrato com gravadora, lançou
discos. Ironicamente, o responsável pelo seu sucesso foi o mesmo vídeo que, dentro
de American Idol, havia servido para desprestigiá-lo. Extraído de seu contexto
original, o vídeo se tornou um mecanismo de celebrização do calouro fracassado.
Não há dúvidas de que, por ação de todos e de ninguém, aquela edição de imagens
havia se tornado outra coisa.
O Festival de Baixa Resolução
tentou adaptar essas dinâmicas de autenticação próprias da rede para dentro da
Instituição Cinematográfica. Segundo seu regulamento, para inscrever uma obra não
era necessário tê-la realizado, apenas responsabilizar-se por ela – de maneira
tão incerta e abrangente quanto esse termo possa parecer. Além disso, para fins
de competição, caso mais de uma pessoa inscrevesse a mesma obra, ela passaria a
ser considerada um trabalho coletivo. No fim das contas, o que estava sendo
julgado eram diferentes prospecções
da web.
As categorias de competição também
foram definidas segundo uma divisão própria de mídias on-line: havia prêmios para vídeos de curta, média e longa kilobyteagem. O peso dos arquivos foi
escolhido como critério de classificação das obras por ser um volume muito mais
pertinente à rede do que a conhecida metragem.
A metragem (extensão em metros)
nos permite deduzir o tempo de duração de um filme projetado. Ela é importante
para saber onde o filme cabe, para programar grades de TV e sessões nas salas
de cinema. Mas esse tempo não faz diferença na Internet. Um servidor não é
limitado pelo número de horas de material que pode conter, e sim pela
quantidade de dados que pode transmitir. O tempo que importa para a rede é justamente
o de transmissão, uma função do tamanho do arquivo, que terminará por definir
sua estratégia de circulação.
Hoje, essas estratégias estão se
solidificando em um circuito quase regular. O aumento generalizado da banda e a
criação de diretórios como Youtube,[7]
Google Video[8] e IFilm[9]
tornaram a rede um meio propício para obras audiovisuais, que terminam por
desembocar em iPods, PDAs e celulares.
Resta saber quais características
do formato prevalecerão, conforme ele se normaliza e atrai criadores
interessados em suas especificidades. O primeiro Baixa Resolução já havia
recebido algumas “obras de autor”, e elas deverão ocupar um espaço muito maior
na próxima edição. Mas não há como saber o que isso representará, se é que fará
alguma diferença.
vídeos por aí
>para ter estatuto de cinemão.
Ah, não é nem de longe “brigar”. Se for questão de colocar no telão, não *precisa* brigar: é fácil, um monte de gente pode fazer, nem gasta muito. Daí, pra abrir a porteira do “estatuto de cinemão” e jogar ele na lama é um pulo (e um objetivo ^^).
Além disso, fazer um festival para filmes de baixa resolução não é uma forma de tentar “equivaler” um formato ao outro, mas simplesmente “colocar no mesmo patamar”, isto é: emparelhar expedientes (sistemas) de produção e autenticação na mesma interface de consumo, formas que as características específicas de cada um (em relação à interface) saltem à vista. Por isso, o festival é menos um mecanismo de celebração do que de investigação. Por isso também, “estranhamento” é uma coisa boa de ele causar.
Por outro lado, como diz o próprio texto, em um outro momento: “em um telão de cinema, o vídeo de Internet está fora de sua condição de consumo particular, condição esta que também define uma porção do significado da obra”. É essa última porção que se busca evidenciar, por negação.
> quem quer ter o mesmo patamar?
Não acho que seja questão de querer. São tudo fatalidades, sistemas que se contaminam e negociam fronteiras. A transmissão não fica imune (o "protocolo" não é total). A TV já entrou na dança: Bonner cai na rede; kibeloco vai pro caldeirão. Faltava o cinema (i.e.: seus expedientes particulares de consumo e autenticação) responder à proliferação de screeners no emule.
Se o mercado (formal e informal) pode se valer desse tipo de promiscuidade (“putaria”) com fins práticos, pq não qquer individuo, nem que seja em uma defesa romântica do telão, de juntar pessoas para ver filmes? =~~
Tomemos o espetáculo para nós.
(vale a pena dizer que o texto foi escrito antes das colocações que fiz sobre o calhau, mas as duas coisas tem muito a ver no letzten woche zeitgeist)

onde estão os vídeos?
achou beeeeeeeeemmmmm estranho um festival low-res "brigar" para ter estatuto de cinemão.
parto de :"Ao contrário de outros festivais que lidam com conteúdo on-line, como o Fluxus[2] e o Animamundi Web,[3] as exibições do Baixa Resolução aconteceram fora da rede, em uma estrutura convencional de disputa cinematográfica: telão, platéia, sound surround. Dessa forma, o vídeo de Internet era colocado no mesmo patamar do filme de curta-metragem, da videoarte e de outros formatos estabelecidos, justamente para que pudesse ser definido em relação a eles."
pergunto:
quem quer ter o mesmo patamar?
pelo amor de dios, estamos discutindo a estética da transmissão, não a da equivalência...
btw, sei que estou devendo as respostas do que vc comentou sobre o calhau. mananã respondo.
afinal, pimenta nos olhos dos outros é refresco ;)
btw2: o marcus (bastos) está organizando um evento mto. bom sobre novos formatos de audiovisual (narrativas líquidas). confira na home, em eventos.
contamos contigo -- nas polêmicas e "live" (lá).