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Gambiarra: necessidade ou maneirismo?

by julmonachesi last modified 18/06/2006 13:25

Matéria sobre a visão da curadora Aracy Amaral a respeito da produção artística emergente exibida no Rumos Visuais, que ocorreu no Instituto Itaú Cultural entre março e maio [revista Bien'art nº 18, maio de 2006]

por Juliana Monachesi

 

Aracy Amaral está convencida de que eles não lêem jornal. Ela é a curadora-geral da exposição “Rumos Artes Visuais 2005-2006 – Paradoxos Brasil” e, “eles”, a nova geração de artistas que o projeto de mapeamento nacional da produção emergente em artes visuais selecionou. As obras, em sua maioria, são pouco críticas. “Parece que eles não sabem que está havendo uma guerra no Iraque, que existe uma crise no governo Lula e que a Europa está tomada pela segregação étnica e social; parece que estão vivendo fora da realidade”, afirma a curadora.

 

A política só não está completamente ausente dos trabalhos desta nova geração, segundo Aracy Amaral, porque muitos dos artistas selecionados utilizam materiais precários, de descarte, na construção de suas obras: “Todos eles parecem colher sua inspiração nas bordas da sociedade capitalista, construindo a partir dos restos e do lixo desta sociedade. A periferia hoje é a cidade e nós, da “cidade”, é que vivemos num gueto”.

 

Esta é a principal tendência que se observa nessa terceira edição do “Rumos Artes Visuais”: quase um terço dos 78 artistas ou grupos selecionados trabalha com sucata tecnológica, refugos industriais ou lixo midiático. A utilização deste tipo de material seria uma maneira de se referir à miséria e às mazelas nacionais e, portanto, politizaria as propostas artísticas apresentadas.

 

Marcone Moreira reorganizada como “pintura” restos de madeira de construção. Giulianno Montijo exibe três de suas máquinas de pinball feitas com sucata. Sergio Bonilha criou dentro da exposição um pequeno centro cultural, com vídeos e livros que podem ser consultados, e um mobiliário que ele mesmo fez a partir de madeira reciclada. Evandro Prado constrói um precário oratório de madeira preenchido com referências à sociedade de consumo a la Nelson Leirner. Sebastião Marcos enfaixa seu conjunto escultórico com borracha reutilizada, material que se esparrama também pelo entorno da peça. Hugo Houayek cria pinturas a partir de lona laranja. Fabrício Carvalho realiza esculturas com dejetos de construções. A casa ambulante de Gaio, um abrigo para ser utilizado em espaços públicos, também é feita de refugos urbanos. Estes trabalhos, somados aos vídeos que reciclam lixo televisivo e às obras que reutilizam outros elementos prosaicos de nosso cotidiano, eleva o número de artistas operando nesta “tendência” a cerca de 25.

 

Considerando a representatividade do projeto Rumos, cabe perguntar o que significa esta predominância no Brasil de obras que ultimamente vêm sendo reunidas sob o guarda-chuva conceitual da “estética da gambiarra”?

 

A curadora-geral questiona: “Seria uma circunstância necessária com que os artistas brasileiros se deparam para produzir ou trabalhar com o descarte tornou-se um maneirismo?” A exposição não traz respostas, afirma Aracy Amaral. Ela reúne as indagações que permearam a pesquisa e as contradições que marcam a arte contemporânea brasileira, daí o subtítulo da mostra, “Paradoxos Brasil”.

 

“Eu entrei neste projeto interessada em saber o que estava acontecendo agora. Percebi que no Brasil convivem vários tempos e que ele é uma espécie de arquipélago de ilhas que pouco se comunicam.” Outra constatação: “a arte sofreu um processo de desmanche e contaminação por outros campos –o vídeo, a literatura, a arquitetura, o design– e hoje consiste em um terreno movediço.”

 

Entre pessimismo e o fascínio, a crítica e historiadora da arte, autora de estudos seminais sobre a arte moderna brasileira, faz um balanço final do projeto: “Desalento? Sim, um pouco. Mas existem também grandes talentos aí”.

 


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