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Sobre a Terceiridade em C. S. Peirce
A distinção entre Fenomenologia e Metafísica, no interior da arquitetura filosófica de C. S. Peirce, é particularmente relevante para o entendimento da noção de Terceiridade. Tenhamos claro que a Fenomenologia trata da classificação do mundo tal como este se apresenta. A Metafísica, por seu turno, procura explicar como o mundo “deve ser” (sua estrutura) para que ele – o mundo – se apresente de modo compatível tal com as descrições da Fenomenologia.
Desta forma, Terceiridade apresenta-se, no plano fenomenológico, como a categoria sob a qual encontramos a experiência das mediações, cujo contínuo vir-a-ser de sínteses e representações, configura aquilo que Peirce chamou de “inteiro resultado cognitivo do viver” (Peirce, CP 7.527). Por outro lado, no plano ontológico, Terceiridade manifesta-se como Lei, como regularidades do mundo e da mente que constituem condição de possibilidade da própria cognição.
Essa útil distinção – entre Fenomenologia e Metafísica – serve-nos para melhor compreender um aspecto crucial: o que torna possível o intelecto agir como uma “máquina de generalizações”? Pois não é de outra forma para Peirce que as mentes atuam. Elaborando abstrações, generalizações, a partir de mediações aplicadas sobre binaridades da existência (Peirce CP 2.84), o intelecto opera a partir de uma premissa que é fenomênica, ao mesmo tempo em que é ontológica. A premissa que afirma que, regularmente no tempo, a realidade persiste contra a consciência. É exatamente essa recorrente coerência que sustenta os potenciais acordos entre previsão e experiência, entre a representação geral e o fato, que tornam possíveis a ação inteligente e, por fim, o conhecimento. Assim se, fenomenologicamente falando, a mente pode categorizar e conhecer o mundo, ontologicamente isto só é possível porque a realidade organiza-se persistente e consistentemente de modo favorável. O mundo, por assim dizer, “quer se dar a conhecer”.
Nesse sentido, o processo de permanente mediação e síntese, emergente das interações ego/não-ego, cristaliza o que podemos chamar de repertórios de fatualidades vividas, representações mentais que, enquanto hábitos, influenciarão condutas futuras do ego permitindo reduzir a “brutalidade do fato à inteligibilidade” (Ibri, 1992, p.15).
Na tríade das categorias fenomenológicas – Primeiridade, Segundidade, Terceiridade – cabe à terceira categoria ‘explicar’, por assim dizer, como as “coisas podem apresentar uma identidade mais ou menos fixa, podendo ser concebidas e antecipadas” (Aydin, 2005, p.17). É esse papel de “fio condutor da vida” (Peirce, CP 1.337) que faz a Terceiridade ser extensa no tempo, conectando passado e futuro, onde mentes interpretantes exercem um permanente teste de hipóteses sobre a alteridade, ou seja, sobre a Segundidade. Terceiridade é portanto, de certa forma, uma projeção do passado sobre o futuro. Projeção que, fundada na experiência vivida, sustenta a intencionalidade do intelecto em direção ao futuro. Note-se que tal comportamento, plenamente compatível com a ontologia peirceana, parte da seguinte hipótese: as regularidades do mundo são reais, logo as generalidades são reais. Desse modo, mentes, enquanto “máquinas de generalizações”, têm a mesma natureza do real, o que as habilita a inferir o futuro a partir dos aprendizados do passado.
Essa homologia entre realidade e mente, ou seja, sua natureza comum, ajuda-nos a compreender outro aspecto relevante da metafísica de Peirce: a tendência dominante, no modo de ser da Terceiridade, para o aprendizado e o crescimento (Peirce, CP 7.536). As mentes do mundo vivenciam um processo contínuo, um incessante desfiar de instantes (primeiridade), impasses (segundidade) e soluções mediadores (terceiridade) cujas resultantes são novos estados de consciência de síntese onde hipóteses se confirmam ou não, hábitos se mantém ou não.
Mas atenção! A mente generalizante está longe de poder alcançar certezas finais. A confiabilidade de suas sínteses e inferências está longe de ser total. Porque, simplesmente, a Primeiridade insiste. Recorrentemente, a Primeiridade desvia o curso da vida. O Acaso ao introduzir assimetrias no plano das segundidades faz do real uma paisagem de irregularidades na qual a uniformidade, esta sim, é a exceção.
Aydin, Cyano. “Além do Absolutismo e do Relativismo: Nietzsche e Peirce”, trabalho apresentado no 8o Encontro Internacional sobre Pragmatismo”, São Paulo, 2005.
Ibri, Ivo. Kósmos Noetós. Editora Perspectiva, São Paulo, 1992.
Peirce, Charles Sanders. Collected Papers. Editado por Charles Hartshorne and Paul Weiss. Vols. 7-8 editado por A.W.Burks. Cambridge: Harvard University Press, 1958-1966, Edição em CD-ROM da InteLex?, 1994.
