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O Platão que existe em Weibel

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last edited 4 years ago by gbeiguelman

A partir da análise crítica que fiz do artigo/curso de Peter Weibel [WEIBEL]?, afirmando que seu ponto de vista é - pelo menos em algumas passagens – nitidamente platônico, achei conveniente fundamentar melhor essa posição. Assim, procuro aqui caracterizar a antiga tradição neoplatônica, a partir de Plotino, para em seguida mapear “coincidências” com teses de Weibel no referido curso.

A Teoria do Conhecimento de Platão

Platão deixou-nos uma vasta obra filosófica que trata de temas diversos dentre os quais a democracia, o valor da arte, as virtudes e a questão do conhecimento. Provavelmente esta última é a mais relevante, dadas influências e interpretações que alcançam os dias de hoje [HEIL]?. O que a teoria do conhecimento de Platão tenta responder? Basicamente o seguinte: como podemos através de um método alcançar o conhecimento da verdadeira natureza das coisas? Para responder a essa pergunta Platão constrói uma teoria sobre a natureza, sobre a essência das coisas (a serem conhecidas), vale dizer, uma ontologia. E já aqui temos um divisor de águas: neste quadro, a tarefa da Filosofia não é refletir sobre as coisas sensíveis, a realidade sensível, mas sim sobre uma realidade abstrata e essencial. Então, bye, bye mundo real. Vamos ao famoso ”mito da caverna” que representa alegoricamente essa ontologia e que, em resumo, diz o seguinte sobre a estrutura da realidade: há dois mundos, o da realidade aparente e o da realidade verdadeira. O primeiro, é o mundo das coisas sensíveis onde imperam a opinião (doxa) e a crença (pistis) e os homens lidam com a imperfeição e a imprecisão. O segundo (realidade verdadeira) é o mundo das idéias ou formas abstratas onde encontramos o conhecimento matemático (dianoia) e o âmago das coisas e dos valores [REPUB]? [MARCO]? [MARÍAS]?. O mundo das coisas sensíveis é o reflexo imperfeito do mundo das formas abstratas. E não é por acaso que Platão elabora esse modelo... Ele acredita que uniformidade e permanência são condições para que possamos obter conhecimento; afinal, como seria possível conhecer o real sensível se este é incerto, instável e encontra-se em permanente mutação? Eis porque a teoria de Platão precisa do mundo das formas ideais: é uma espécie de “seguro epistemológico”! Aristóteles irá depois “chacoalhar” tudo isso, mas essa é outra estória...

Descontando todo o (belo) revestimento poético – e algo místico – das obras de Platão, há um ponto essencial que devemos fixar, e que vai seguir conosco: o da separação corpo-alma. Vejamos trechos do diálogo Fédon [FEDON]? mantido por Sócrates em sua prisão, poucas horas antes de morrer.

“... ela (a alma) raciocina melhor precisamente quando, livre de qualquer perturbação, parta esta dos ouvidos, dos olhos, de uma dor, ou pior ainda, de um prazer; quando está isolada o mais possível em si mesma, afastando o corpo... (assim) aspira ao real...”

“... Aquele que por meio do pensamento em si mesmo e por ele mesmo, e livre de qualquer impureza, se pusesse em buscas das realidades... depois de se ter desembaraçado dos olhos, dos ouvidos, e... do corpo inteiro, pois que este é que perturba a alma e a impede de adquirir a verdade...”

Se o mundo sensível, que o corpo habita, é imperfeito e enganoso, a alma é o veículo para acessar o conhecimento verdadeiro. Vale observar que se despirmos o texto de seu misticismo e substituirmos o termo “alma” por “mente”, iremos nos aproximar de um tema clássico que foi reatualizado nos dias de hoje, em parte, pelas pesquisas em IA: o problema mente-corpo ou mente-cérebro [HEIL]?. Essa substituição é perfeitamente aceitável se considerarmos que na República, Platão complementa sua teoria da alma (psyché), atribuindo-lhe não apenas a função de vitalidade dos corpos, mas também funções cognitivas, intelectuais e morais.

O Neoplatonismo Antigo

Platão teve muitos discípulos e seguidores, dentre eles, Aristóteles. Para se ter uma idéia de sua influência, a Academia de Platão em Atenas “operou”, por assim dizer, de 387 a.C até 529 d.C. Porém com a decadência de Atenas, a emergência de inúmeras escolas filosóficas, e as conquistas de Alexandre, a cultura grega se espalha num movimento que hoje chamamos de Helenismo. Já no contexto do Império Romano, em 244 d.C em Roma, Plotino funda uma escola, a partir da qual torna-se importante filósofo cujo sistema de pensamento, o neoplatonismo (há várias correntes na antiguidade), influencia fortemente a filosofia antiga, incluída a cristã (através de Santo Agostinho) [MARCO99]?.

Os diálogos de Platão são marcados por um encontro de tradições onde há um fundo evidente de religiosidade mística que se apresenta em metáforas, conceitos, e mesmo na temática. Caso do Pitagorismo com sua visão dos números como princípio essencial das coisas, aliada a uma teoria da transmigração das almas que vê no corpo uma prisão. Esses aspectos místicos, da ordem do sagrado, é que serão valorizados e desenvolvidos por Plotino [PLOTI]? e outros mais. Aqui não está em jogo a Fé religiosa, mas a atitude ascética e filosófica forjando o caminho da transcendência pessoal. Vejamos alguns trechos de um dos tratados de Plotino:

“Muitas vezes ocorreu-me ser retirado de meu corpo e conduzido a mim mesmo; ser retirado das coisas externas e introduzido em mim mesmo; e então ver uma Beleza maravilhosa, tornando-se ainda maior a certeza de que pertenço à ordem superior dos seres por ter realizado em ato a mais nobre forma de vida; ter-me identificado com a divindade...“ [PLOTI6, p.81]?

“... Platão diz que, se nossa alma se junta a essa que é perfeita, ‘viaja pelas alturas e governa todo o kósmos. Ou seja, quando ela se mantém livre de toda servidão em relação a um corpo particular, então... co-governará o kósmos...” [PLOTI6, p.83]?

“As almas que se individualizam... também têm um elemento transcendente, mas estão ocupadas com a percepção sensível de muitas coisas que são contrárias à sua natureza e as aflige e perturba, pois o objeto ao qual se dirigem [o corpo]? é parcial, deficiente...” [PLOTI6, p.95]?

“...há dois motivos para o comércio da Alma com o corpo ser desagradável: por ser um obstáculo aos atos intelectivos da Alma; e por encher a Alma de prazeres, apetites e sofrimentos. Nada disso ocorreria se as almas... não fosse escravas e sim soberanas deles (os corpos)...” [PLOTI6, 86]?

O corpo continua a ser visto como um veículo, mas Plotino identifica na Alma humana e na Alma universal (conceito por ele introduzido) uma conexão de transcendência interligando esses dois mundos: o do Sensível e o Inteligível. Dessa forma torna-se possível explicar porque a realidade sensível mantém sua estrutura “bela e em ordem” (porque é supervisionada pela Alma do Mundo [PLOTI6, p.95]?), e ao mesmo tempo porque a experiência extática (de acesso ao Divino) é acessível à Alma humana.

As “Coincidências”

Agora vamos ao ponto central deste artigo. Relacionamos três teses de Weibel e procuramos mostrar como estão marcadas por um forte “sotaque” platônico revelador da sua visão teórica (e quem sabe política) do ciberespaço.

“Podríamos entonces imitar la visión, construir una experiencia cinemática sin luz ni ojos, crear imágenes sin percepción, trasladadas mediante la estimulación directa de redes nerviosas... El cerebro, en oposición al ojo, se convertiría en la pantalla.” [WEIBEL, p.11]?

Ora, o que dizer desse ponto de vista a não ser defini-lo como idealista platônico? Está claro aqui o pressuposto de que a inteligibilidade da experiência cinemática (e estética em geral) é da ordem do Mundo das Idéias, uma vez que afirma o primado do cérebro (Platão e Plotino diriam psyché) como uma espécie de “porta legítima das percepções”. Ou seja, por que “intermediários” (os sentidos) se podemos falar direto com o “chefe” (o cérebro)?

“Estos sistemas de imagen inteligentes significan un paso futuro hacia la liberación de los seres humanos de la prisión natural del espacio y el tiempo.” [WEIBEL, p.15]?

Nada mais autenticamente platônico que a idéia de que os humanos estão aprisionados no tempo e no espaço: ou seja, em suas vidas e seus corpos. Platão usa a imagem do corpo como uma “prisão” da alma [FEDON]?. Weibel usa a mesma metáfora! Será o Mundo Virtual de Weibel uma janela para o reencontro com o Supremo, à moda das experiências extáticas de Plotino?

“La relación entre el mundo de la imagen y la realidad será múltiple y reversible, y el propio observador será la interfaz entre el mundo virtual artificial y el mundo real.” [WEIBEL, p.15]?

Seremos nós os humanos “meios” de conexão entre mundos com estatutos ontológicos completamente distintos – tal como em Platão e Plotino? Num plano, o Mundo Virtual habitado por formas puras (quânticas talvez...), vazias de conteúdo sensorial, tal como no Mundo das Idéias de Platão; e noutro plano, o Mundo Real, sua miséria e sofrimentos. Caberá a nós o papel de comutar esses planos, vivendo experiências singulares e solitárias – numa espécie de solipsismo estético – “em que o espaço real e o espaço da imagem” são reversíveis. E... bem... tudo isso para... para que mesmo, hein?!

Por essas razões, afirmo: Peter Weibel é um (ciber)neoplatônico.

Bibliografia

[FEDON]? Platão, “Fédon”, versão digital do “Grupo de discussão Acrópolis (Filosofia)” [http://br.egroups.com/group/acropolis/]?, http://www6.ufrgs.br/idea/

[HEIL]? John Heil (Ed.), “Philosophy of Mind: A Guide and Anthology”, Oxford University Press, 2004, 1ª edição.

[MARCO]? Danilo Marcondes, “Iniciação à História da Filosofia”, Jorge Zahar Editora, 2004, 8ª edição.

[MARÍAS]? Julián Marías, “História da Filosofia”, Martins Fontes, 2004, 1ª edição.

[REPUB]? Platão, “A Repúplica”, Coleção Os Pensadores, Editora Abril, 1983.

[PLOTI]? Plotino, “Tratado das Enéadas”, Polar Editorial, trad. Américo Sommerman, 2002.

[PLOTI6]? Plotino, VI Enéada – “Sobre a Descida da Alma nos Corpos”, in “Tratado das Enéadas”, Polar Editorial, trad. Américo Sommerman, 2002.

[WEIBEL]? Peter Weibel, “La Imagen Inteligente: ¿Neurocinema o Cinema Cuántico?”, Aula do curso "De Cezane à Imagem Algorítmica", ministrada no MECAD (2004).


neoplatonismo --gbeiguelman, Thu, 12 May 2005 21:49:33 -0300 responder

abel, depois de dias e dias de pesquisa em torno do "como dar uma resposta decente...", parece-me que a coisa está mais para kant revisted, uploaded & remixed [http://netart.incubadora.fapesp.br/portal/referencias/kant/view]?


firehorse