Personal tools
You are here: Home Membros Abel Reis O Filo Maquínico – por uma nova filosofia da natureza
Polls
Qual é o boi na linha da cultura digital
e-mail lido na madrugada e respondido entusiasticamente
e-mail escrito entusiasticamente na madrugada
ficar feliz com recado na secretária eletrônica, retornar a ligação e descobrir que está falando com o telemarketig
assinar listas cujo o "unsubscribe" é mera ficção
parar tudo para atender o celular e dar de cara com SMS da sua operadora
Polls | Results
 
Views

O Filo Maquínico – por uma nova filosofia da natureza

Document Actions
last edited 4 years ago by abeltreis

Recuperado da ressaca pós-leitura de “Machinic Heterogenesis” [GUAT01]? decidi (re)organizar as idéias, cibridizando algumas leituras adicionais. Aqui vai a “apropriação”que fiz do texto.

O ponto mais relevante do artigo [GUAT01]?, a meu ver, é a munição que oferece para uma crítica da visão antropocêntrica e humanista acerca do estatuto e papel das máquinas, a partir da ontologia realista (“realidade existe e não depende do sujeito”) subjacente ao pensamento filosófico de Deleuze e Guattari (D+G).

A visão dominante do pensamento humanista sobre homens e máquinas, que se alastra para o senso comum, enuncia-se como:

• a tecnologia e as máquinas são uma maravilhosa conquista da humanidade que resulta da nossa capacidade de dominar a natureza e fazer progredir a sociedade;

Ou ao contrário:

• a tecnologia e as máquinas estão levando a humanidade a um desvirtuamento da condição humana, onde corremos o risco de sermos dominados num futuro não tão distante.

Em ambos os casos, o que se percebe é uma visão das máquinas como extensão, prolongamento do corpo e da mente, resultado da história humana e das habilidades dos humanos. Mas esse é apenas um ponto de vista. Há outro possível como indica [FERR04]? ao citar o Anti-Édipo de D+G:

“Não se trata mais de confrontar o homem e a máquina... mas de fazê-los comunicar para mostrar como o homem forma peça com a máquina, ou forma peça com outra coisa para constituir uma máquina. A outra coisa pode ser uma ferramenta... ou outros homens.” [FERR04, 4]?

D+G não ficam por aí e elaboram um novo conceito: o de phylum maquiníco(1)

“Partimos não de um emprego metafórico da palavra máquina, mas de uma hipótese sobre a origem: a maneira como elementos quaisquer são determinados a formar máquina por recorrência e comunicação; a existência de um ‘phylum maquínico” [FERR04, 4]?

Diga-se por sinal, que este conceito aparece ainda que relativamente disfarçado, no “Machinic Heterogenesis” [GUAT01, 42]?, em duas passagens que destaco (traduzindo) a seguir:

“A evolução filogenética do maquinismo pode ser construída, num primeiro nível, com base no fato de que as máquinas aparecem como em ‘gerações’; elas tomam o lugar das outras à medida em que se tornam obsoletas. Mas não estamos falando de causalidade histórica unívoca. Linhagens evolutivas apresentam-se como rizomas...”

“O martelo que compramos hoje na loja de ferragens é, de algum modo, ‘realização’ (appropriated) de uma linhagem filogenética de possibilidades virtuais para o futuro que não estão definidas.”

Aqui, já usando a interpretação que Manuel De Landa [LAND95]? [LAND97]? faz de D+G, podemos dizer: máquinas não são objetos materiais (muito embora também possam sê-lo), mas antes definem-se por um certo padrão de configuração, instâncias combinatórias de elementos (quaisquer) que se consolidam numa nova entidade – por exemplo, corpos ou sistemas. Máquinas emergem e conformam-se na circulação de fluxos de energia-matéria-informação em seu corpo (sem órgãos). Esse fluxos desestratificados são “lava, biomassa, genes, normas, moeda... em escalas de tempo e espaço inteiramente relativas” a circular em diversas esferas como a história humana, a atmosfera (ex.: furacões), a genética, as cidades, as linguagens e outros infinitos corpos sem órgãos [LAND95, 11]?. Importante: a regulação de intensidade em cada parâmetro (energia, matéria, informação), que pode ser igual a 0 (zero), é que determina a dinâmica e a estrutura que será gerada(2).

Dessa forma, o filo maquínico(3) é o acontecer de uma linhagem evolutiva própria, inanimada (como as pedras e os aviões), que atravessa e é atravessada pelas linhagens evolutiva da biologia e da história (esta sim própria do ser humano), e que se concretiza em ferramentas e máquinas desde já agenciadas em novos maquinismos. Essa ontologia que procura entender a gênese das formas geo-bio-culturais [LANDA97]? com base em fluxos imanentes (de energia-matéria-informação), permite-nos pensar o homem não como comandante da Evolução, mas como agente circunstancial inserido numa proliferação de maquinismos [GUAT01, 42]? em que “a própria idéia de natureza autônoma é fruto de maquinismos específicos” [FERR04, 6]?.

Chegamos assim a uma visão não-antropocêntrica, não-humanista (teórica), decorrente dessa ontologia realista e materialista, onde se desenha uma nova filosofia da natureza. Aqui, homens e máquinas se equivalem e se hibridizam por meio de interfaces múltiplas e imersivas [BEIG05]?.

Notas e Bibliografia

(1)Phylum refere-se à categoria evolucionária da biologia. Os humanos, como vertebrados que são, pertencem ao phylum 'chordata'.

(2)Sobre a discussão mantida na aula de 5/5/2005 a propósito da hierarquia de máquinas diagramáticas e máquinas técnicas. Penso que máquinas diagramáticas são simplesmente concretizações em intensidades diferentes daquelas encontradas em máquinas técnicas ou mesmo proto-máquinas. Nesse sentido, a meu ver, não há hierarquia a ser considerada.

(3)De Landa trata o conceito de phylum maquínico e de Corpo sem Órgãos como muito próximos, se é que não são equivalentes.

[BEIG05]? Gisele Beiguelman, “Admirável mundo cíbrido”, 2005. http://netart.incubadora.fapesp.br/portal/Members/gbeiguelman/Textos

[FERR04]? Pedro Peixoto Ferreira, “Máquinas Sociais: O Filo Maquínico e a Sociologia da Tecnologia”, apresentado no evento Arte, Tecnociência e Política, Unicamp. 2004.

[GUAT01]? Felix Guattari, “Machinic Heterogenesis”, in Reading Digital Culture, David Trend (ed.), Blackwell, 2001.

[LAND95]? Manuel de Landa, “The Geology of Morals”, artigo publicado em Zero News, 1995. http://t0.or.at/delanda/geology.htm

[LAND97]? Manuel de Landa, “The Machinic Phylum”, artigo publicado em Institute for Unstable Media – V2 Org, 1997. http://framework.v2.nl/archive/archive/node/text/default.xslt/nodenr-70071


firehorse