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Neoplatonismo, bobagens e muito pouco a dizer
Wittgenstein disse uma vez a propósito das questões da linguagem: sobre o que não se pode falar deve-se calar. Peter Weibel (PW) deveria ter se calado. Há três teses que gostaria de enunciar – e ver criticadas – sobre a leitura que fiz de “La Imagem Inteligente: Neurocinema o Cinema Cuántico?” Como método, procuro estabelecer o que PW diz, para em seguida levantar questões.
Tese 1: O autor é pouco informado sobre muita coisa
Imagem algorítmica
PW afirma: “...para uma imagem como sistema se requer o armazenamento virtual da informação”. (pág. 6)
“a imagem é um sistema dinâmico de variáveis” (pág. 6). Creio que aqui o autor tentar dizer que imagens digitais não são um repositório estático de pixels, mas algo diferente que a seguir ele procura esclarecer dizendo que as “variáveis de um sistema de imagem” são como agentes. Depois de uma digressão que vai de Thue à linguagem Algol (passando por Chomsky) ele conclui sem qualquer conexão lógica: “as variáveis da imagem se converteram em agentes autônomos, em dados com vida própria” (pág 7). E mais: diz que o código cinematográfico de hoje imita o crescimento caótico como um aspecto da vida. Uau: o que será que isso quer dizer!?!?!
Baseado nesta afirmação PW conclui que esses agentes autônomos de software podem tomar suas próprias decisões e que “pela primeira vez” temos um sistema que pode adaptar-se ao ambiente a partir de seu interior (pág. 6 e 7).
Por fim, o autor sentencia: “... a imagem tem comportamento e inteligência naturais... e pode imitar a evolução da vida” (pág. 7).
Questões:
- O há de virtual no armazenamento de informação em computadores? Se é ótico ou magnético não importa, pois para mim é físico e real;
- O autor confunde simulação de um evento com a ocorrência do mesmo;
- O que há de “natural” num sistema onde agentes artificiais (modelados em software) operam em conformidade com regras artificiais bem definidas (programadas em software)?;
- De que sistemas de imagem algorítmica ele fala: os jogos on-line? Os simuladores de vôo? Os renderizadores de imagens fractais?
Vale ainda observar: (i) a idéia de computação por agentes não necessariamente está relacionada à pesquisa em algoritmos genéticos como PW faz crer; (ii) de onde PW tira a idéia de que pela primeira vez , aparentemente graças ao conceito de “algoritmo genético”, temos um sistema auto-adaptativo? Será que ele não conhece as recentes aplicações de redes neurais?
Redes nervosas
PW afirma (pág. 9) que em meados do século XX “a busca por uma analogia entre a matemática e o cérebro... haviam alcançado... uma etapa em que as atividades nervosas que representavam as idéias e os processos de pensamento podiam ser descritas em termos matemáticos. Essa busca desembocou em máquinas que podiam pensar...”
Mais adiante o autor (pág. 10) refere os trabalhos pioneiros de McCulloch? e Pitt como confirmação de que os “acontecimentos do mundo podiam ser representados em redes nervosas artificiais”, bem como se “poderiam simular atividades nervosas do cérebro como os processos de pensamento, a computação e inclusive a visão” (pág. 10).
Questões:
- Qual é a analogia possível “entre a matemática e o cérebro”? O autor usa termos inadequados (senão errados) para falar de coisas muito importantes!!!
- será que PW fala mesmo sério quando reporta que desembocamos em meados do século XX em “máquinas que podiam pensar”? Recomendo urgentemente a leitura de [DREYFUSS]?;
- PW trata o modelo de McCulloch?-Pitt (MP) como se este fundamentasse sua tese de que os acontecimentos do mundo são representáveis em redes nervosas artificiais (pag. 10). O modelo de MP é uma abstração matemática do neurônio real e as redes que forma não sâo capazes de fazer o básico do humano: aprender!! Somente com os trabalhos de Rosenblatt no final dos 50 é que surgem redes que aprendem e reconhecem padrões (no caso, caracteres). Ocorre que um trabalho de Minsky e Papert, no final dos 60, demonstrou uma limitação crucial na máquina de Perceptron, e durante praticamente 20 anos ninguém pesquisou mais Redes Neurais. Só nos 80 com novos algoritmos ressurge o interesse no tema. Ou seja, não é pincelando referências aqui e ali que PW chegará a fundamentar suas hipóteses...
PW parece-me um mistificador que tendo pouco a dizer, fala muito do que não conhece contando com a tolerância da platéia.
Tese 2: O corpo é um acessório descartável PW parece entusiasmado com as seguintes idéias:
“...criar imagens sem percepção, traduzidas mediante estimulação direta das redes nervosas...” (pág. 11)
“...graças a códigos temporais (sic!!)... haveria a percepção sem sentidos, se veria sem ter que usar os olhos...” (pág. 11)
“...a computação reversível (sic!!!) permitirá relações reversíveis entre o espaço real e o espaço da imagem”
“...sistemas de imagem inteligentes significam um passo futuro para a libertação dos seres humanos da prisão natural do espaço e do tempo.
Questões: (i) PW é um neoplatônico, tecno-romântico que acredita no mundo das formas ideais (virtual) onde podemos nos projetar liberando nossos espíritos das amarras dolorosas da vida corpórea (ex.: falta de sexo, dor de dente);
- Por que ele supõe que a experiência sensorial corpórea é dispensável para vivenciar o neurocinema? PW parece imaginar que a mente é um software rodando num hardware corpo/cérebro determinado, mas que pode ser – pelo menos conceitualmente – portado para um outro equipamento (humano ou não).
Tese 3: A idéia de computador quântico é uma forma de o autor falar sobre o que não interessa Todo o amontoado desconexo de informações e referências presente no artigo, visa sustentar a seguinte visão de PW: “minha proposição é que cada membro do público em um cinema poderia ver uma película (ato falho, hein?!) diferente.” (pág. 13) Hum... E para tanto ele acredita precisar de um “computador quântico que permite o acesso estocástico à informação, onde cada pessoa tem um jogo de valores probabilísticos.”
Questões:
- muito barulho por muito pouco. A idéia da personalização da obra pelo espectador é interessante, mas por que dispensar o olho humano, e fabricar um computador quântico?;
- não contente PW ainda supõe que o acesso à informação seja estocástico, isto é, probabilístico. Por que? Para quê? O que significa ter um “jogo de valores probabilísticos” ? Quer dizer acessar a obra conforme as minhas chances de não compreendê-la? Quer dizer acessar a obra conforme as minhas experiências de vidas (passadas, reais ou paralelas)? Será que é ver a “imagem algorítmica” conforme uma distribuição normal onde a minha película será escolhida conforme a decisão da maioria presente ao cinema?
- Agora um desafio: a imagem algorítmica tem inteligência natural, tem vida própria, e é potencialmente conectável aos meus neurônios. Quando eu parar para fazer xixi, ao voltar, o filme começa de onde parei ou vou ter que começar de novo em outra estória?
Viram como é ridículo? Pois é, para mim o artigo de PW não “cola”.
(DREYFUSS) Hubert Dreyfuss, What computers can’t do – A Critique of Artificial Reason, MIT Press (MINSKY) Marvin Minsky e Seymour Papert, Perceptrons, MIT Press
Criado por abeltreis Última modificação 19/04/2005 16:13
... --gbeiguelman, Tue, 19 Apr 2005 16:47:01 -0300 responder
Abel, Primeiro, parabéns pela sagacidade. Tenho muito o que pensar no feriado, mas...vou entrar na discussão pelo final:
- "A idéia da personalização da obra pelo espectador é interessante, mas por que dispensar o olho humano, e fabricar um computador quântico?"
não é sensacional pensar que um dos desdobramentos da ciência cntemporânea é apontar para um mundo livre do atavismo biológico, dentro do qual seremos tão úteis às máquinas quanto elas a nós?
o fim do antropocentrismo é uma das mais radicais transformações que a contemporaneidade anuncia (parece-me).
- "não contente PW ainda supõe que o acesso à informação seja estocástico, isto é, probabilístico. Por que? Para quê? O que significa ter um “jogo de valores probabilísticos” ? Quer dizer acessar a obra conforme as minhas chances de não compreendê-la? "
quer dizer que em um sistema não-antropocêntricos as possibilidades cognitivas se multiplicam, pois não as dominamos em nenhum ponto
- Agora um desafio: a imagem algorítmica tem inteligência natural, tem vida própria, e é potencialmente conectável aos meus neurônios. Quando eu parar para fazer xixi, ao voltar, o filme começa de onde parei ou vou ter que começar de novo em outra estória?
Essa pergunta só é plausível no âmbito da interatividade burra atual e sua interfaces emperradas. As duas situações acontecem com a maior parte dos DVDs? e seus players...
Olha, depois de ler com calma toda essa discussão, eu fiquei pensando o quanto o estilo de uma escrita pode incomodar. Acho que PW (como o autor da crítica resume o nome próprio de Weibel) tem um estilo próprio, bastante poético, e nada animador para quem gosta de um Minsky ou qqer. outra coisa do gênero. Eu acho que a gente tem de respeitar cada forma de pensamento. Não vejo como começar a pensar sobre o que foi escrito, e de maneira muito irônica, através de uma reinvindicação que é injusta por parte do autor-crítico (aqui no caso Abel). No primeiro plano da crítica, o autor-crítico (Abel) dispara contra o que PW (Weibel) não fez, ou seja, inicialmente esvazia seu argumento quando tenta ou impõe uma necessidade ao escritor de um texto que não dá a mínima bola para o que o crítico pensa ser a forma correta de escrita científica, ou seja lá o que for. Se não é possível partir de uma leitura que conserve o espaço do outro, sem realizar uma brutal descontextualização, e uma violenta desestabilização por conta do que metodologicamente não é a pretensão do outro, a crítica fica caduca, e o que é mais grave, segundo meu ponto de vista, cínica. Eu acho que o exercício de leitura de um texto deve ser feito com relação as especificidades de cada escritor, de seus interesses, de suas formas de escrita e de compreensão do mundo. Sabemos que a ciência não tem tempo para isso; prefere destruir, arrazar, arrebentar com os que fogem daquilo que ela espera. E depois reclamam da inquisição. Bem, mas agora entrando nos pontos que a crítica pretende atacar, eu penso que PW (Weibel) tem uma visão própria das características da imagem, eu diria que essa forma de ver poderia até ser chamada de proto-poética, mas que tem bases muito sólidas na crítica de arte sobre a configuração da imagem. Se pensarmos um pouco na crítica estética, na questão do campo escópico, trabalhado à exaustão por muitos filósofos (Adorno, Horkheimer, etc.) e depois com Benjamin e cia. esse discurso pode ser lido como uma retomada de uma discussão. Não sei se incendiando o teatro e o palco da discussão a gente pode localizar isso o que eu tentei dizer. Mas continuo pensando que a gente deve ter um pouco mais de calma, paciência e, o que eu acho mais difícil, tentar ver o outro de onde ele fala, e não exigir dele que ele diga o que eu quero ouvir, mesmo sabendo que a gente só ouve o que quer ouvir mesmo, e também só lê o que a gente quer ler, não fazendo a mínima diferença se está escrito x ou y. A questão é ideológica, mas isso seria uma discussão para outra hora....e para finalizar, tem um outro chavão que eu acho mais legal: tudo o que a gente não pode falar, a gente deve escrever.... e para continuarmos a trocar idéias, penso que PW (Weibel) está interessado em discutir aspectos teóricos, talvez ligados ao platonismo, mas eu penso que eles são muito mais ligados a teoria hegeliana. Ex.: quando Weibel fala das formas ideais ele obviamente tem fora da mente a concepção de imagem a partir da formação estética da tradição moderna, e a partir daí, não acho que ele tenta insinuar nada ligado a uma recepção formal e muito menos simplista. Se a gente quiser, eu achei uma citação do Hegel, na estética:
"We will first explain what should here be understood by the term symbol. 1. It is a sensuous object, which must not be taken in itself such as it presents itself immediately to us, but in more extended and more general sense. There are, then, in the symbol two terms to be distinguished: first, the meaning, and, secondly, the expression. The first is a conception of the mind; the second, a sensuous phenomenon, an image which address itself to the senses.
Thus the symbol is a sign, but it is distinguished from the signs of language in this: that between the image and the idea which it represents, there is a relation which is natural, not arbitrary or conventional. It is thus that the lion is the symbol of courage, the circle of eternity, the triangle of the trinity.
Still, the symbol does not represent the idea perfectly, but only from a single side. The lion is not merely courageous, the fox cunning. Whence it follows that the symbol, having many meanings, is equivocal. This ambiguity ceases only when the two terms are first conceived separately and then in combination; the symbol then gives place to comparison.
Thus conceived, the symbol, with its enigmatical and mysterious character, is peculiarly applicable to a whole epoch of history to Oriental art and its extraordinary creations. It characterises that order of monuments and emblems by which the peoples of the Orient have sought to express their ideas, but have been able to do so only in an equivocal and obscure fashion. Instead of beauty and regularity, these works of art a bizarre, grandiose, fantastic aspect.
When we find ourselves in this world of symbolic representations and images of ancient Persia, India, and Egypt, all seems strange to us. We feel that we are groping about in the midst of problems. These images do not entertain us of themselves. The spectacle neither pleases nor satisfies us in itself; we must pass beyond the sensuous form in order to penetrate its the more extended and more profound meaning. In other productions we see at the first glance that they have nothing serious; that, like the stories’ of children, they are a simple play of the imagination, which is pleased with accidental and particular associations. But these peoples, although in their infancy, demand a meaning and a truer and more substantial basis of ideas. This, indeed, is what we find among the Indians, the Egyptians, etc., although in these enigmatical figures the meaning may be often very difficult to divine. What part must it play amid this poverty and grossness of conceptions? How far, on the contrary, in the incapability of expressing by purer more beautiful forms the depth of religious ideas, is it proper to call in the fantastic and the grotesque to the aid of a representation of which the aspiration is not to remain beneath its object? This is a difficult point to decide." (Hegel, of the symbolic form of art in Aesthetics, pg. 11). e a partir daí, teremos um bom começo para discutir os aspectos da imagem que PW trata, com distinção e apreço. Espero que os Minskyanos não reclamem do estilo de Hegel.... abs, cicero.
Resposta a Gisele --abeltreis, Fri, 22 Apr 2005 16:54:55 -0300 responder
Gisele, Procurei responder em parte aos pontos que você coloca. Procurei também deixar mais claro meu ponto de vista.
Considero-me um “anti-humanista teórico” no sentido de que não acredito no Homem como sujeito da História, e não creio numa essência humana para além das práticas sociais e da linguagem. Digo isso porque também acho que máquinas e homens apresentam homologias (cérebro/processador, olho/câmera, voz/ sintetizadores, etc), que na origem são traços antropomórficos, mas cuja evolução provavelmente nos fará compatíveis, pelo menos biologicamente: é o caso das próteses e implantes. Digo isso por acreditar nas incríveis possibilidades de experiências estéticas e de comunicação em um mundo onde máquinas e homens tenham um mesmo estatuto “ôntico” (enquanto entes por assim dizer, muito embora ache o termo forte). Mas, infelizmente, não é nada disso que PW aborda...
Mas, para que não fique a avaliação de que não vejo pontos relevantes no artigo, vamos a eles diretamente. PW afirma que o cinema convencional – um legado do século XIX – “é escritura do movimento... é uma máquina que simula o movimento do olho.” (pág. 2). Adiante, PW observa que (pelo menos conceitualmente, acredito eu) o ciberespaço permite sair do domínio cinematográfico para o domínio opsiscópico no qual observado e observador fazem parte do mesmo quadro. Muito embora deixe inexplorado esse conceito, PW, mais adiante (pág. 3), fala das tecnologias interativas como viabilizadoras de um “campo pictórico” sensível à interação e, no caso de RV, ao movimento do observador, sendo este agora uma parte do sistema. Já na seção 8, ele fala do cinema do futuro como um aparato (ex.: implantes de nanochips) capaz de criar percepções sem o uso dos sentidos. Talvez possamos vivenciar essas experiências estéticas como vivenciamos sonhos ou “viagens” de LSD, penso eu... Até aí eu sigo ele (mesmo com todos os tropeços).
Porém há desdobramentos riquíssimos que deveriam ser apontados por PW e que a meu ver o são de forma muito superficial (pág. 11). Caso simples e óbvio: o das pesquisas em Neuroestética onde são estudadas as correlações entre processos neurais e a expressão e experiência estéticas [KIRK]? [ZEKI]?. É coisa séria e grave. Discute-se nesses fóruns se as artes devam considerar “as leis do cérebro” como insumo em seus trabalhos. Mas PW prefere especular a conexão de neurochips ao cérebro... (pág. 11) que é apenas um aspecto da questão Neurociências/ Artes, e por sinal, a meu ver, o menos importante agora.
Enfim, PW parece-me sempre mais atraído pelas especulações sem compromisso... É o caso da seção 9 do artigo onde pode ser encontrada a seguinte pérola (pág. 14): “A relação entre o mundo da imagem e a realidade será múltipla e reversível”. Do que se trata? Viagens no tempo? Universos paralelos? Realismo fantástico?
Se PW quer fazer ficção científica que o faça e diga que vai fazê-lo. Se não é esse o caso, então precisa ser intelectualmente mais responsável.
[KIRK]? Ian Kirk, What is neuroesthetics?, 2004, www.neuroesthetics.org
[ZEKI]? S. Zeki e M. Lamb, The Neurology of Kinetic Art, 1994, Brain, 117, p607-636.
Resposta a Cicero --abeltreis, Fri, 22 Apr 2005 19:11:51 -0300 responder
Começo por dizer que não quero parecer desrespeitoso com Peter Weibel, ou PW como o chamei por economia de espaço. Contudo, como intelectual de projeção que é, PW deve avaliar que o que ele diz tem repercussões...
Cícero, não sou “minskyano” (se é que alguém assim se define). Não faço parte da turma que acredita que a inteligência humana é um software rodando num hardware chamado cérebro. Se você quiser me localizar no mapa da filosofia, estou mais para Heidegger e a leitura que dele fazem os filósofos americanos da Costa Oeste (Hubert Dreyfuss à frente). Admito que também tenho pitadas de Filosofia Analítica, o que não me faz um um impaciente que “prefere destruir, arrazar (sic), arrebentar com os que fogem daquilo que ela <a ciência> espera”. Simplesmente gosto de demarcar o que é claro, conseqüente e inteligível, daquilo que não o é...
Concordo quando você diz que devemos “tentar ver o outro de onde ele fala, e não exigir dele que ele diga o que eu quero ouvir”. E é assim que lendo Weibel eu “ouço” Platão. Mas não “ouço” Hegel. Hegel tinha uma concepção da História muito clara: o percurso do Espírito humano em direção à sua realização (perfeição) plena. Nesse sentido, Hegel via a Arte como um estágio desse aperfeiçoamento contínuo que começara com os Egípcios e outros, passara pelos Gregos e Romanos (era Clássica) e chegara à era Romântica. E acabou. Hegel achava que a Arte chegara ao fim, isto é, já cumprira seu papel como um veículo do Espírito. Aliás, o Artur Danto tem um livro sobre esse tema (After the End of Art, Bollingen).
Vamos agora à questão do Símbolo em Hegel. Pelo pouco que sei, e pelo que li no texto que você refere, o Símbolo, e o que Hegel chama de Forma Simbólica, é o estágio inicial da Arte (entendida esta como história da realização do ideal de Beleza). Dessa forma, a “expressão artística simbólica” (usando termos que talvez Hegel não usasse) vivia um desajuste, desproporção entre forma e conteúdo (idéia) – caso da artes no antigo Egito, na Índia ou na Pérsia. O progresso do Espírito nas Artes é a procura desse ideal, onde por sinal as diversas arte vão se superando dialeticamente. Caso da Poesia sobre a Música, e desta sobre a Pintura.
Sendo assim, não consigo ver PW como um “ciber-hegeliano”.
Por fim, acho interessante a eventual relação da idéia de PW sobre Neurocinema com a tradição de Adorno e Benjamin. Gostaria de ouvir mais...
... --igansi, Sat, 23 Apr 2005 16:53:31 -0300 responder
Pergunta [q ñ cala]? Caim: - A imagem de um cachorro morderá no futuro?
Why the future doesn't need us. Our most powerful 21st-century technologies - robotics, genetic engineering, and nanotech - are threatening to make humans an endangered species. Bill Joy - http://www.wirednews.com/wired/archive/8.04/joy.html
A indubitável inteligencia digital, especialmente depois da década explicitada pela onipresença destas na vida dos demasiados humanos, sugere que, pelo menos em parte, e especialmente para as novas gerações, o principal paradigma da informação e, por que não, de percepção, esteja tornando-se [como o foi a cultura impressa nos últimos 2.500 anos e, em especial, nos 500 anos desde a invenção da imprensa por Gutenberg]? predominantemente informático-visual.
Neste contexto, não me parece que possamos chegar a uma conclusão definitiva acerca do impacto das mais novas tecnologias de produção, reprodução, recuperação e veiculação de imagens, tampouco encerrar as investigações sobre as potencialidades que as mais recentes pesquisas apontam. Podemos arriscar algumas conclusões provisórias à guisa de comentários finais.
Se o conceito “tecnologia” é definitivamente amplo, pode-se afirmar que seu uso na produção de imagens não é algo novo, mas coexistente com a própria Cultura Visual praticada por esse Sujeito interfaciado, de subjetividade tecnestésica. A resposta assim, pode ser:
- Sim. Morderá.
Resposta a Cicero --cicero, Sat, 23 Apr 2005 21:38:14 -0300 reply
Oi Abel, ok. Entendi que vc. não era Minskyano, não quis dizer isso. O que tentei fazer ao ler suas críticas é pensar que um dos problemas de tratar a imagem a partir do digital é localizar uma tradição, e essa tradição (que alguns chamam contexto) passa pelo que você descreveu de Hegel. O símbolo é só uma etapa. Não penso como você em relação aos propósito da filosofia hegeliana sobre a estética. A fenomenologia é só um dos aspectos, mas sobre os fins, eu acho que a síntese não é um terceiro, mas um duplo duplicado. Enfim, como vc. apresenta o Danto, o último livro dele apresenta um pouco essa discussão: Unnatural Wonders, no qual a imagem é discutida pela via do signo, principalmente a contemporânea. Ou seja, Danto vai do Brillo Box, via Hegel, até a circularidade da representação que não mais representa. Ele acaba chegando perto do Peirce, mas ainda fica na duplicidade, não vai até o terceiro. Um texto bacana para e gente pensar o problema da imagem contemporânea e discutir com o PW (Weibel) está no segundo capítulo do livro Prosthetic Gods, do Hal Foster, no qual ele se prende muito as inúmeras diferenças entre o sujeito diante da imagem, o conceito de representação na psicanálise e os termos que diferenciam circustanciadamente o que faz um elemento conceituado como imagem se desprender do fenômeno, ou seja, o fenômeno é tratado como impossível e só sobra a pulsão escópica como resto da imagem, ou seja, a construção do imaginário para dar sentido ao que se vê, e daí a gente pode chegar até o conceito de imagem obliterada pensada, a meu ver, via Hegel em PW (Weibel), continua mais tarde...obrigado pela resposta. Cicero.
