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A Bomba Informática: Comentários de leitura

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last edited 4 years ago by abeltreis

Intrigado com uma certa “nostalgia dos primórdios” que atravessa "A Bomba Informática" de Paul Virilio [VIRILIO]?, decidi desmontar o texto e “olhá-lo por dentro”. Foi assim que localizei, com a ajuda de [COOK]?, o gene fenomenológico do autor; o que ajuda a melhor compreender origem e razões de seu discurso tecnofóbico.

Começo por colher alguns trechos muito reveladores:

-“... la investigación tecnocientífica vuelve a ser de nuevo ahora una ciencia de la desaparición de esta misma verdad, con el advenimiento de un saber menos enciclopédico que cibernético que niega toda realidad objetiva.” [p.13]?

-“Lo que se iniciaba con el gran Hollywood de los años 20 era, en realidad, la era posindustrial, la catástrofe de la pérdida de la realidad del mundo.” [p.34]?

-“...lo analógico cediendo sus prerrogativas a lo numérico... pero a condición de aceptar el emprobecimiento creciente de las apariencias sensibles”. [p.128]?

O que nos dizem esses trechos da obra? Virilio formula uma visão de que o mundo e sua realidade a partir, principalmente, do século XX, torna-se uma gigantesca ilusão de ótica [p. 37]? operada pelo complexo tecno-militar-industrial em seus diversos desdobramentos – médicos, publicitários, policiais, financistas [p.38]? – e agora potencializado pela ‘lente’ cyber que ao intensificar, em especial, o desaparecimento das sensações imediatas [p.128]?, aumenta o risco sistêmico de uma “cegueira coletiva da humanidade” [p.127]?. Este perigoso quadro configura-se pela virtualização do real onde o computador torna-se uma máquina de visão [p.26]?, de previsão [p.27]?, de produção de transaparências midiáticas [p.25]?. Eis que o mundo que se dá à consciência através das vivências fenomênicas do sujeito, encontra-se interceptado pelo instrumento do número que veda “toda duración meditada, toda reflexión inteligente”(1)[p.138]?.

Virilio denuncia o crescente “espessamento” dos meios e modos de acesso à realidade onde a aceleração do Tempo e a compressão do Espaço, diluem intervalos, interstícios e diferenças entre pessoas e entre objetos. São muitos os sintomas dessa síndrome “dromosférica” [p.130]?: vigilância panóptica e voyeurista [p.69]?, descontrole na manipulação de fontes e da opinião pública [p.122]?, tecnocultura totalitária [p. 48]?, simbiose entre o humano e a tecnologia [p.49]?, dentre outros. Vê-se assim que a bomba informacional já explodiu. [p.122]?

Subjacente a essa denúncia do “espessamento” há um ponto de vista filosófico com colorações fenomenológicas (na linha do “de volta às coisas mesmas”) como nos mostra [COOK]?. Vale aqui uma rápida digressão. A Fenomenologia não é uma escola filosófica em sentido estrito, uma vez que teve diferentes desenvolvimentos a partir de Husserl (Merleau-Ponty, Heidegger, Sartre). Contudo há alguns pontos centrais, e dentre eles um aqui nos interessa: o ponto de vista de que as ciências – e a Física em particular – influenciaram a tradição filosófica moderna no que tange à crença de que objetos podem ser adequadamente descritos por suas propriedades básicas, e no papel das sensações como base da percepção. Dessa forma, se teorias e constructos científicos, por um lado, são úteis enquanto ferramentas de previsão, falam-nos apenas parcialmente sobre as bases experienciais das crenças e do “ser-no-mundo” dos homens.

Virilio não é um ingênuo, mas inevitavelmente soa nostálgico. Ele parece acreditar numa realidade primeira, “uma morada do ser” à qual temos acesso, de modo intuitivo, num tempo-espaço do humano vivido. Para Virilio, naturalizamos o que não é natural, porque fomos endocolonizados. Fomos cegados pela "luz" tecnicista, cibernética, midiática, mundializada, onde tempo-espaço foram virtualizados.


  1. Esta passagem remete ao ponto de vista de Muniz Sodré no Antropológica do Espelho quando este diz que “... o indivíduo é solicitado a viver, muito pouco auto-reflexivamente, no interior das tecnointerações, cujo horizonte á a interatividade absoluta ou a conectividade permanente.” [MUNIZ, p.24]?.

[COOK]? David Cook. “Paul Virilio: The Politics of 'Real Time' “ CTheory? [online]?, 16/01/2003. Disponível em: <www.ctheory.net/text_file?pick=360>

[VIRILIO]? Paul Virilio. La Bomba Informática. Cátedra. Madri. 2000. Trad. Mônica Poole.

[MUNIZ]? Muniz Sodré. Antropológica do Espelho. Vozes. 2002.


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